Primeiras Impressões – This Is Us (NBC)

15/10/2016

A série é uma crônica da relação de um grupo de pessoas que nasceram no mesmo dia, incluindo Rebecca (Mandy Moore) e Jack (Milo Ventimiglia), um casal esperando trigêmeos, Kevin (Justin Hartley), um ator que está cansado do que faz, Kate (Chrissy Metz), uma mulher tentando perder peso e Randall (Sterling K. Brown) um homem rico à procura de seu pai biológico.

This Is Us- Season 1

Se em meio a uma Fall Season entediante, cheia de remakes, adaptações e franquias (parece Hollywood, não?), o canal NBC, lembrando que este é pertence à tevê aberta, acaba de lançar uma série dramática que tem tido uma repercussão incrível, audiência enorme e, melhor ainda, merece todos os elogios por ir contra a corrente atual do mundo das séries.

This Is Us começa sua história meses atrás com a divulgação de um trailer que atingiu uma repercussão mundial, e em sua estreia nos apresenta um piloto cinematográfico, não no sentido de produção, mas sim de roteiro, surpreendente, sensível e extremamente delicado, com um final digno de fechamento de ciclo, lembrando a estrutura de um filme, mas aqui o começo desta crônica de personagens nascidos no mesmo dia e que possuem conexão.

Já exibido (e visto) seu 3º episódio, a série apresenta uma narrativa estruturada em duas linhas do tempo, com diálogos e conflitos palpáveis, o que facilita sua identificação com o público, lembrando a estrutura de uma novela, no entanto com um tom completamente adverso a esta, no qual os personagens estabelecem conexões uns aos outros e isto leva a narrativa adiante (pelo menos, nestes primeiros episódios, o que ainda prevejo muita dificuldade numa temporada de 18 episódios).

Os roteiros dos episódios me surpreenderam pelo equilíbrio entre drama, drama familiar e um humor gostoso de acompanhar quando desde o piloto criamos empatia com todos os personagens, sem exceção, impressiona que até mesmo a possível “armadilha” de ter um storyline de busca de um filho pelo pai após décadas, este ainda surgindo doente em estado terminal, consegue ter uma abordagem diferente pela série. Gosto de alguns nomes envolvidos na produção da série como do criador Dan Folgeman (que também trabalhou em séries como Grandfathered, Galavant e a outra novata da temporada, Pitch), que se uniu aos diretores/roteiristas John Requa e Glenn Ficarra, todos de Amor à Toda Prova (comédia romântica de 2011 que possuía um grande elenco (Ryan Gosling, Emma Stone, Steve Carrell e Julianne Moore) que lembra muito o clima de This Is Us).

Outra agradável surpresa da série, que acredito seja mérito do roteiro e da direção, é juntar um elenco extremamente mediano, desculpem os fãs de Justin Hartley (Arqueiro Verde de Smallville), Milo Ventimiglia (protagonista de Heroes) e Mandy Moore (cantora/atriz) e ofertar para os mesmos possivelmente os melhores papéis de suas carreiras, todo elenco esta bem e possuem uma naturalidade em cena que impressiona, claro que com total destaque neste início à Chrissy Metz (atriz que participou na temporada Freaky Show de America Horror Story).

PS.: sem a menor sombras de dúvidas, o melhor piloto desta Fall Season 2016!

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Balanço da Temporada: Stranger Things – 1ª temporada

02/08/2016

stranger

A Netflix é um negócio do “capeta”, nem mesmo eu que adoro assistir episódios fielmente a cada semana resisti de não maratonar a primeira temporada de Stranger Things, não que tenha assisti tudo em dois dias, mas em uma semana já estava com sorriso largo de lado a lado do rosto do belo trabalho realizado pelos Irmãos Duffer.

Claro que algumas semanas após o grande buzz que a série provocou no meio midiático já há vozes dissonantes fazendo o contraponto aos comentários elogiosos, que não são poucos. Há certo exagero em ambas versões, a série não é a melhor série do ano (quiçá do Netflix), mas tampouco é somente mais uma série televisiva. Grande parte do mérito deste trabalho se concentra nos desconhecidos Irmãos Duffer, responsáveis por Wayward Pines (que já se apresentava como uma ficção científica cheia de referências ao gênero), aqui eles criam, ou melhor, recriam com detalhes ímpares costumes/situações/personagens que habitaram o cinema dos anos 80.

Até mais do que isso, ao mostrar adultos fumando em frente de crianças, a série já ganha meu respeito por realmente focar sua trama nos anos 80, não somente referenciar com o politicamente correto que impera atualmente, como fez Spielberg em sua remontagem de E.T; falando em Spielberg, além das óbvias referências a sua filmografia (lembrando que recentemente Super 8, de J.J. Abrams também “homenageou” sua filmografia), os irmãos Duffer relembram/homenageiam John Carpenter e Stephen King, através de referências ao Enigma do Outro Mundo, Silent Hill (este fora dos anos 80), Poltergeist, Conta Comigo, It, Os Goonies, entre outros.

No entanto, como uma série de 8 episódios, nem sempre o roteiro conseguiu manter a dinâmica da trama, acabou abrindo o arco em três subtramas centrais, o desaparecimento do menino Will e a busca de sua mãe e amigos por ele, o surgimento de uma menina com poderes tele cinéticos envolvida com uma agência do governo e um triângulo amoroso entre os adolescentes, sendo esta última a trama mais deslocada da série e que pouco acrescentou à mesma, com exceção de uma morte que trouxe um perigo real aos jovens.

Falando nos jovens, Mike, Dustin e Lucas e, em seguida, com a chegada de Eleven são a grande força motora da série, o roteiro não os retrata com atitudes adultas para criar empatia com o público adulta, são crianças interpretando crianças, como suas qualidades e defeitos, como as inúmeras discussões dentro do grupo e rapidamente retomada da amizade, é uma química que impressiona, são personagens cheios de vida e isso passa ao espectador da série, principalmente, para aquele que se sente representado na telinha.

Já os personagens adultos são mais dramáticos, Winona Ryder rouba diversos episódios com sua obsessão em fazer contato com o filho (espero que seja a volta por cima da atriz, revelada nos anos 80), enquanto David Harbour interpreta o poder policial amargurado por um drama do passado que acaba se identificando com as fragilidades da personagem de Winona; uma pena o roteiro não abrir possibilidades para os vilões humanos, Matthew Modine platinado nada tem a fazer em cena.

Gosto como a série ampliou seus mistérios, revelando alguns e acrescentando outros na reta final, deixando claro que a série foi pensada para ter mais temporadas. Divertida e com doses de aventura, terror e suspense (com ótima recriação de época e cuidados com trilha sonora) é uma série que veio para ficar, principalmente, para os saudosistas com mais de 30 anos!

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Primeiras Impressões – The Night Of – Justiça em Julgamento (HBO)

09/07/2016

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Procurando uma boa série na Summer Season 2016, confesso que até aqui poucas coisas me seduziram, na minha watchlist permaneceram apenas Animal Kingdom (TNT), Outcast (Cinemax/FOX) e este novo drama criminal do canal HBO: The Night Of.

Projeto que ficará conhecido por ter sido o último no qual James Gandolfini estaria envolvido, tanto que seu nome aparece nos créditos como produtor, uma pena vislumbrei sua persona no personagem Jack Stone, nos poucos momentos nos quais o personagem aparece, o que não diminui o bom trabalho de John Turturro, é somente uma constatação de um fã, quase chegou a interpretá-lo também Robert DeNiro, o que não se concretizou por problemas de agenda. Torço pelo sucesso de Turturro, ator/diretor, que nunca chegou ao estrelato.

Remake da britânica Justiça Criminal/Criminal Justice. A história acompanha o caso de Nasir (Rizwan Ahmed), um jovem americano de origem paquistanesa acusado de matar uma mulher. Jack Stone (Turturro), um desleixado advogado de ‘porta de cadeia’, se apresenta como seu defensor. Ao longo da minissérie, o público acompanha as investigações realizadas pela polícia, bem como o desenvolvimento do processo, que fará uma análise dos sistemas jurídico e penitenciário.

Sobre a série em si, o piloto já esta disponível no serviço streaming da HBO gratuitamente (link: HBO GO), a estréia oficial da série é em 10 de julho em terras americanas, mesmo pecando pela duração do episódio (79 min), para mim, séries dramáticas têm 45 minutos de ação por episódio e só, mais que isso a narrativa tem que ser muito “redondinha” para não cansar o espectador, o que não acontece aqui, no entanto, como a ação (não física) esta mais concentrada na segunda metade do piloto, isso acaba não sendo um problema grave.

A produção tem grife HBO, impecável pra não mudar a sina, a fotografia urbana noturna e o clima de tensão crescente são alguns dos destaques, trabalhado pelo bom diretor/roteirista Steven Zaillian, que se não me engano dirigirá os 8 episódios, dando uma unidade técnica bastante interessante à minissérie.

Fico curioso pelo tom do texto, afinal estamos lhe dando com um suspeito de origem paquistanesa em tempos de intolerância étnica, acusado de assassinar à sangue frio uma guria branca, ainda envolvendo drogas, fuga do suspeito e tudo apontando para o mesmo como culpado pelo assassinato.

Obs.: Não tem como não lembrar de True Detective e torcer para que siga o bom caminho trilhado pela primeira temporada da série de Cary Fukunaga. Vale uma espiada!

 

Balanço da Temporada: Game of Thrones – 6ª temporada

28/06/2016

***RISCO DE SPOILERS

Que temporada amigos leitores! Uma das coisas que sempre me incomodou em Game of Thrones (HBO) foi as storylines personagens errantes, sempre caminhando em florestas, palácios e cidades medievais atrás de algum poder/familiar ou em fuga! Sempre achava este artifício meio enrolador dentro da narrativa política da série, como se sempre estivesse evitando um confronto (claro que estou simplificando para exemplificar); assim esta temporada, a primeira não baseada num livro de George R. R. Martin, pois o escritor demorou mais do que os anos de produção da série para finalizar sua obra (lembrando que a série esta renovada e sera finalizada em mais 2 temporadas), mesmo transpondo em idéias e planos gerais de Martin para a história, não teve um livro propriamente dito para adaptar, os “showrruners” (David Beniof e D. B. Weiss) e roteiristas tiveram que criar e isto foi o fator fundamental para o sucesso da temporada.

Com liberdade criativa nota-se que nos 10 episódios exibidos um ou dois tiveram um ritmo vagaroso, comum em temporadas anteriores, e somente um arco me incomodou em sua levada demasiadamente lenta, o da personagem Arya, os demais tiveram uma dinâmica muito mais televisiva, se podemos dizer assim, em 10 episódios, tivemos a ressurreição de Jon Snow, negociações com o Norte e a Batalha dos Bastardos; Daenerys é sequestrada e já reúne um exército para unir aos que já possuía rumo ao trono de ferro; e Cersei, pós caminhada da vergonha, artimanha uma maneira de minar o fluente poder religioso de Porto Real. Divido a trama da temporada nestes três núcleos pois serão estes que caminharão rumo ao final da trama, claro não esquecendo os Outros e seus zumbis.

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Além disto, esta temporada resolveu “brincar” com o tempo ao unir numa mesma storyline o sumido Bran descobrindo seus poderes de Corvo de três olhos, vislumbrando o passado de sua família, aos Filhos da Floresta e Whitewalkers, que têm sua origem retratada.

Logo, observa-se que os roteiristas resolveram começar a responder algumas questões e dúvidas dos fãs tanto da série quanto dos livros, fazendo o que normalmente se chama de fan service, isto colaborou essencialmente para resolução de diversas situações e eliminação de personagens/núcleos nos quais a trama patinava em demasia, dando uma sensação de unidade maior a temporada.

Sobre o elenco e produção não vou comentar porque este sempre foi um dos maiores acertos da série; dito isto, naturalmente, Lena Headey foi o ponto alto dentro no elenco (numa temporada dominada pela mulheres) e como destaque de produção a maravilhosa sequência da Batalha dos Bastardos, uma das melhores sequências de ação televisiva, sem deixar nada a dever a nenhum épico do cinema.

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Balanço da Temporada: The Walking Dead 6ª temporada

04/04/2016

*****aviso de spoilers

Não esperava que isso acontecesse nessa temporada, com uma iminente e propagada reviravolta na trama, a dita “chegada de um novo antagonista, vilão icônico como Governador, etc”, mas finalizo meus trabalhos com The Walking Dead!

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Dito isso, acho a temporada muito boa, uma das melhores até aqui, desde o início com a dominação do grupo de Rick em Alexandria até a ideia de se livrar dos zumbis na pedreira, sequências bacanas e cheias de tensão, daí vem os roteiristas e criam aquele mistério tabajara sobre a morte ou não de Glenn, que além de muito mal feita, ainda permanece durante um mês no ar na série. Terminamos com o plano de Rick dando errado e uma invasão de zumbis aniquilando parte de Alexandria, segunda parte da temporada, temos a ameaça assombrosa dos Salvadores e o nome de Negan sendo dito aqui e ali, conhecemos Jesus (num episódio Sessão da Tarde) e Hilltop de uma maneira interessante e bem dinâmica para os padrões – lentos – da série, no entanto, quando tudo se encaminha para uma reta final inesquecível, os roteiristas tiram o pé das tramas, começam a trazer uns questionamentos irrelevantes aos personagens, as malditas saidinhas para morrer alguém, nem sempre relevante, e chegamos à season finale!

Era o momento de explodir cabeças, no entanto, os roteiristas resolveram rodar-rodar-rodar com os personagens, fugindo dos Salvadores, afinal eles queriam levar Maggie ao médico de Hilltop ( e nossa médica de Alexandria ficou pelo caminho na temporada), o que até gerou uma tensão psicológica pouco costumas à série, para depois de tudo encontrarmos o tão famoso Negan. Aí Jeffrey Dean Morgan é introduzido com sua rotineira cara de ironia e deboche despeja um monólogo assustador ao grupo de Rick (ajoelhado e enfileirado junto com nomes como Carl, Michonne, Daryl, Glenn – de novo -, Maggie, Abraham, etc), exemplificando como as coisas funcionam por aquelas bandas e para mostrar seu poder, junto ao seu taco com arame farpado, denominado Lucille, mata um personagem escolhido aleatoriamente através do clássico uni-duni-tê, ouvimos as pauladas, vemos o sangue subjetivo (escorrendo pela vítima) e…sobem os créditos, sem mostrar quem foi a vítima! WTF!

Assim, mais uma vez, os roteiristas usam de um artifício preguiçoso e covarde, não revelar o que aconteceu em sequência, pela 3ª vez somente nesta temporada, no caso de mortes (primeiro o Glenn, segundo o Daryl no penúltimo episódio), para criar um tipo de “buzz” na internet e discussões mundo afora. O que se mostra uma bobagem sem tamanho pois o que realmente importa em qualquer dramaturgia é a consequência da morte de um personagem frente aos sobreviventes, a morte em si é somente para surpreender/emocionar o espectador, o roteiro precisa é abordar/trabalhar o que vem depois disso.

Com esta sensação de “coito interrompido” me despeço da série, num momento bom da mesma. Boa sorte aos sobreviventes na jornada!

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Um Homem Entre Gigantes

07/03/2016

Em meio à campanha #oscarsowhite, que obviamente é uma questão de suma importância como denúncia de pouco acesso aos negros e minorias aos melhores papéis da indústria cinematográfica, falava-se sobre a ausência de Will Smith, como exemplo, na mesma premiação por seu papel em Um Homem Entre Gigantes, como sendo uma injustiça da Academia; este tipo de repercussão me preocupa em tempos de radicalismos, pois o personagem Dr. Bennet Omalu e consequentemente o filme dirigido por Peter Landesman são de uma superficialidade ímpar, como normalmente ocorre em biografias americanas, não conseguem apresentar seu “biografado” sem homenageá-lo, glorificá-lo e canonizá-lo, típico exemplo de biografia “chapa branca”!

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Dr. Omalu é um cientista exemplar perdido dentro de um prédio Médico Legal, seus colegas não gostam dele pois ele trabalha e dedica-se “demais”, inclusive conversa com os mortos, é um estrangeiro discreto, educado e praticamente assexuado; o personagem não apresenta conflito algum para Will Smith, sempre com forte sotaque, olhar doce e fala mansa, o personagem somente tem alguns embates com figurões ou colegas com maior prestígio que o dele, nem mesmo sua vida privada é abordada com verosimilhança pelo roteiro, sua “partner” Gugu Mbatha-Raw, serve somente de ouvidora para as explanações do personagem em determinados momentos do filme, um desperdício!

Ao tentar fazer um típico filme “homem contra o sistema”, no caso a denúncia do dr. Omalu de que o futebol americano causava danos neurológicos aos jogadores da Liga NFL, lembrando que este é fato verídico, o roteiro e a direção não conseguem se impor de maneira clara, pintam todos personagens e situações com preto e branco, não há espaço para sutilezas, conspirações e hesitações, parece que tentaram deixar tudo o mais “mastigadinho” possível para o grande público.

Portanto, foi um belo acerto deixar de fora do Oscar tanto a interpretação de Will Smith como possíveis outras indicações a mais um filme “oscarizável” de 2015.

PS.: bons exemplos de indicações que poderiam combater o debate étnico deste ano seriam Samuel L. Jackson, por Os Oito Odiados, Michael B. Jordan, por Creed, assim como seu diretor/roteirista, Ryan Coogler, apenas para citar alguns.

UM HOMEM ENTRE GIGANTES: 2star

Direção: Peter Landesman

Roteiro: Peter Landesman, artigo de Jeanne Marie Laskas

Com: Will Smith, Gugu Mbatha-Raw, Alec Baldwin, Albert Brooks, David Morse, Arliss Howard. 123 min

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A Garota Dinamarquesa

02/03/2016

Apesar de passado o buzz sobre o Oscar 2016, ainda há alguns filmes aos quais gostaria de tecer alguns comentários, nem todos positivos, como o caso de A Garota Dinamarquesa. Indicado para alguns prêmios Oscar, e bastante citado em outras premiações, sobretudo o trabalho da dupla de protagonistas, Eddie Redmayne e Alicia Vikander, é possível notar que o estrago até foi pouco, digo isso, porque o filme em si é uma reunião de equívocos, principalmente, por parte do roteiro e da direção.

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Apesar de não gostar do trabalho de Tom Hopper, desde seu equivocado Oscar por O Discurso do Rei e, em seguida, por Os Miseráveis, acreditava que a história de Einar Wegener/Lili Elbe era uma trama cinematográfica por excelência; visto o filme, as expectativas foram “ladeira abaixo”, o roteiro de Lucinda Coxon é de uma pobreza ímpar, ao invés de investir sua narrativa nas angústias e transformações pelas quais passam sua personagem (no caso, Einar/Lili), ela simplesmente coloca o personagem vestindo a roupa da esposa para posar para a mesma e isto aflora seu lado feminino e pronto, assume sua identidade feminina! Não parece haver uma transição psicológica para o personagem, assim como a aceitação da esposa, Gerda, também é extremamente simples, do ponto de vista dramatúrgico. Além disso, o roteiro parece mentir, esconder alguns fatos conhecidos de historiadores, como a sexualidade de Gerda, que seria lésbica o que facilitaria sua aceitação a identidade feminina do marido, assim fica difícil embarcar numa trama dita real que apela para o tom mais novelesco em detrimento dos fatos conhecidos.

Se o roteiro já escorrega em sua função, Hopper também não facilita em suas escolhas, sempre apelando para o melodramático como os confrontos entre os protagonistas, os desenlaces dramáticos e as insistentes sutilezas de Lili Elbe em frente ao espelho, como se tivesse se reconhecendo, uma direção irritante pela obviedade e primária para um ator competente como Eddie Redmayne (ganhador do Oscar 2015), mas que precisava de uma direção mais segura e menos oscarizada para bodá-lo neste gestual.

Insisto que seja o filme mais fraco desta safra do Oscar 2016, no entanto, o trabalho de Alicia Vikander (premiado com o Oscar de atriz coadjuvante), que é protagonista antes de qualquer coisa, apesar da fragilidade do roteiro, imprime emoção na medida certa para sua personagem, além disso, é óbvio que há uma bela direção de arte, incluindo cenários e figurinos, pena que à mercê de uma trama tão equivocada, afinal quais foram as motivações de Einar em se transformar em Lili? Não poderia opinar!

A GAROTA DINAMARQUESA: 2star

Direção: Tom Hopper

Roteiro: Lucinda Cox

Com: Alicia Vikander, Eddie Redmayne, Ben Wishaw, Amber Heard. 119 min

 

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O Quarto de Jack

15/02/2016

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Se o buzz de O Quarto de Jack, quando mencionado, sempre aponta para o nome do jovem ator, na verdade, a carismática criança Jacob Tremblay, merecidamente, diga-se de passagem, afinal de contas o difícil e pesado tema do filme tem como ponto de visto o do jovem Jack, quando vemos o filme, o mesmo ganha contornos maiores e melhores. Se não é mentira que Jacob Tremblay rouba a cena, também, deve-se deixar bem claro, que o excelente trabalho de direção, de roteiro e de sua parceira de cena, a atriz Brie Larson, colaboram em muito para o filme um destaque e, consequentemente, parte da cota independente (indie americana) no Oscar 2016.

Gosto quando o Oscar dá visibilidade a certos projetos, pequenos em sua maioria, mas relevantes em temas abordados, como acontece em O Quarto de Jack; me surpreendi bastante com a metade inicial da narrativa que dramatiza as manchetes de jornais sobre mulheres feitas reféns em cativeiros e que acabam criando uma família, vinda do abuso, nesse ambiente. Ali, o diretor Lenny Abrahamson mostra todo seu talento, junto ao diretor de fotografia e aos cenógrafos, ao “expandir” o referido quarto do título, deixando-o muito maior do que realmente é (como conferimos numa sequência ao final), mimetizando o olhar de Jack para este, afinal como aquele é o universo do personagem, nada como este achá-lo muito maior do que realmente é.

Em sua segunda metade, pós fuga do cativeiro, o roteiro muda a abordagem, sai a aparente retrato de normalidade do dia-a-dia, de abusos cíclicos e dificuldades, e entra em cena a adaptação para o “mundo real”, neste sentido, Jack por estar em contato com incontáveis novidades se adapta muito melhor que sua mãe, que em seu retorno para o lar dos pais (na verdade, da mãe, pois após 7 anos de cativeiro, seus pais se separaram), encontra extremas dificuldades em “continuar” com sua vida, parece que realmente o que mantinha Joy “viva” no cativeiro era sua porção “mãe ursa”, protegendo o filho de possíveis contato com Velho Nick e com a dura realidade na qual viviam; neste momento, o roteiro e a atriz Brie Larson, roubam o filme para si, retratando a fragilidade psicológica na qual o jovem se encontra, triste e comovente!

Buscando abordar somente as vítimas, em momento algum sabemos o que ocorre com o estuprador/sequestrador e nem seus motivos, o roteiro se diferencia de dramas comuns, ao buscar delicadeza e verossimilhança para os eventos, além dos referidos talentos acima citados. Um filme imperdível!

O Quarto de Jack: 5star

Direção: Lenny Abrahamson

Roteiro: Emma Donogue

Com: Brie Larson, Jacob Tremblay, Joan Allen, William H. Macy. 118 min

Primeiras Impressões – The X-Files (10ª temporada)

26/01/2016

arquivoXO que pode dizer um fã sobre o retorno da sua série predileta ever? Arquivo X, sim desculpem, não consigo chamá-la de The X-Files, sou da época, meados de 1993/94, na qual a série se transformou num sucesso na sua exibição (principalmente a partir da 3ª temporada) tanto no canal Fox quanto na tevê aberta, na Rede Record, foi a primeira série que acompanhei anualmente durante seus 9 anos de exibição, que junto aos filmes não tão bons e este retorno televisivo, já somam 22 anos acompanhando as aventuras do casal de detetives do FBI envolvidos em conspirações alienígenas, humanas e científicas.

É muita alegria e nostalgia! Para melhorar, nada como reunir o elenco principal e nomes importantes para a franquia, como o envolvimento do roteirista/diretor James Wong, já no 2º episódio, sem sombras de dúvidas um dos melhores roteiristas de episódios fillers da série original, claro sem mencionar, Chris Carter, Gillian Anderson, David Duchovny, Mitch Pileggi e William B. Davis (quero saber como?).

ArquivoXPoster3O primeiro episódio, My Struggle, pisou fundo na conspiração dos tempos atuais, incluindo menções a Edward Snowden, Serviço Secreto, drones espiões, manipulação genética e etc. Sabem que fiquei com a impressão que mesmo passados mais de 20 anos, os temas focados pela série me parecem mais verossímeis do que nunca! Achei que a “desculpa” para reunir a dupla de agentes, afastados do FBI, bastante frágil, mas o restante do episódio e o foco novamente no início histórico da não invasão alienígena (como sempre nos foi informado), mas sim, do uso de tecnologia alienígena por humanos, lá em Roswell muito, mas muito interessante e curioso, inclusive com direito a flashbacks, em ótimas sequências (possivelmente as melhores envolvendo este contexto histórico/lendário em dramaturgia).

Após o evento que reuniu a dupla e gerou a reabertura dos Arquivos X, já temos um episódio caso da semana (que saudades…), Founder’s Mutation, que na verdade não é simplesmente um caso isolado/monstro da semana, afinal voltamos nossa atenção para manipulação genética e a relação paternidade/maternidade, o que inevitavelmente nos leva para a grande questão em aberto do “casal” Mulder e Scully, o filho de ambos, William, doado por Scully para proteção do mesmo ainda bebê. Adorei os flashbacks envolvendo memórias que os personagens não tiveram com o filho, mostrando o quanto ambos permaneceram todo este tempo solitários, notem que não há menção alguma a relacionamentos amorosos passados/atuais para os personagens, parecem que os mesmos pararam no tempo nessa questão dentro da série, bastante triste! Outro ponto que estes episódios avulsos classicamente sempre permitiam na série eram a descontração através do humor de Mulder, referências pops e, agora, auto referências e até mesmo Scully mais saidinha quando menciona que ela pertence a “Era pré-Google”.

Os Oito Odiados

21/01/2016

osoitoodiadosComeço a resenha dizendo que sou fã dos trabalhos do diretor/roteirista Quentin Tarantino, nerd, fã de cinema de gênero, Tarantino é um herói para quem curte o cinema pop recheado de homenagens e referências a clássicos, diretores e trilhas sonoras; em Os Oito Odiados, além de retornar ao thriller de confinamento/enfrentamento visto lá nos seus primórdios em Cães de Aluguel, notadamente, o roteiro de Tarantino navega por outras referências, como o óbvio western e pitadas de Agatha Christie, sem esquecer de acrescentar, mais uma vez, um microcosmos social como pano de fundo.

Assim me parece que o cinema de Tarantino vem evoluindo (mesmo nem sempre genial), seus últimos filmes, Bastardos Inglórios e Django Livre, já trabalhavam numa revisão histórica de fatos da História Americana/Mundial tendo também como pano de fundo contextos sociais, casados com a violência pertinente às épocas que o diretor não abre mão.

Em Os Oito Odiados, mesmo tendo uma primeira parte falada ao extremo, sem quase ação nenhuma, passada no interior de uma carroça (belamente fotografada e encenada), o diretor consegue transmitir com eficiência a solidão e isolamento dos personagens naquele do belo visual gélido do Wyoming. No entanto, é inquestionável o crescimento do filme com a chegada dos personagens à cabana/mercearia para fugir da nevasca que se aproxima, até este momento, fomos apresentados aos caçadores de recompensa John Hurt (Kurt Russell) e Major Marquis (Samuel L. Jackson, sempre eficiente trabalhando com Tarantino), ao misterioso xerife Chris Mannix (uma das melhores surpresas do filme, Walton Goggins, já famoso dos seriemaniácos por trabalhos nas séries Sons of Anarchy e Justified, caindo como uma luva no cinema/personagem de Tarantino) e a prisioneira Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh, cumprindo a cota atores renascidos em filmes do Tarantino).

Na mercearia, lindamente fotografada, retratada e, praticamente, cenário único na metade final do filme, os demais personagens nos são apresentados (Bruce Dern, Tim Roth, Demian Bichir e Michael Madsen), e um clima de conspiração, paranóia, armadilha, segredos e muita violência são explorados dali em diante. Se a primeira parte do filme peca na dinâmica, necessária para apresentar os personagens, a sequência toda na mercearia é o que de melhor Tarantino nos reserva, tanto no texto, quanto direção, cenografia e atuação, não esquecendo a trilha sonora de Ennio Morricone (mestre dos western), surpreendente ao fugir do óbvio.

A cereja do bolo do roteiro de Tarantino, que não abre mão do sarcasmo e humor negro costumeiros, é o retrato social que o diretor cria para os Eua pós Guerra Civil, se nos diálogos isso fica bem claro, principalmente, no embate entre o Major Marquis e o General Smithers, o mosaico de personagens isolados na nevasca enfatiza essa questão, reparem que temos americanos, do sul e do norte, um mexicano, um inglês e uma única mulher (criminosa, que vira o saco de pancadas dos personagens, surgindo em cena já de olho roxo, numa violência cartunesca).

OS OITO ODIADOS: 9,0

Direção: Quentin Tarantino

Com: Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Samuel L. Jackson, Walton Goggins, Tim Roth, Michael Madsen, Bruce Dern e Demian Bichir. 168 min