Balanço da Temporada: Séries Estreantes

Que a temporada de 2009/10 foi um fracasso ninguém tem a menor dúvida, há alguns anos, desde o fantástico ano de 2004 (quando da estréia de Lost, Desperate Housewives, House e Grey’s Anatomy, só para citar algumas) para a televisão aberta americana, não presenciamos mais tamanha criatividade e ousadia. Observem que desde então, as redes de televisão a cabo é que tomaram conta das premiações (salvo exceções) e de elogios mais frequentes, parece que os canais da tevê aberta, até em virtude da crise econômica, resolveram adotar o esquema “feijão com arroz”, fazem somente o básico, não inovando em narrativas e, abusando, de realities shows, notadamente, mais baratos.

Assim, com esta triste introdução, a temporada não trouxe nenhuma inovação, no entanto, alguns shows tiveram boas idéias e competentes adaptações, souberam fazer com o básico séries realmente interessantes e uma, em especial, desde já entra para a história mas, não pelo motivos corretos.

Modern Family: sem a menor sombra de dúvida, a melhor estréia da temporada, este sitcom pega a última moda na televisão americana, falso documentário, como em The Office, para nos mostrar que ainda há espaço para o gênero mais genuinamente americano, a comédia familiar. Nesta caso em particular, observem a excelente escalação de elenco, não há nenhum ator deslocado, todos parecem ter nascido para seu personagem. Sou obrigado a confessar minha fascinação pelos “sem noção”, neste quesito ninguém ganha de Phil Dunphy, o ator Ty Burrell apresenta um timing cômico invejável no seu personagem que tenta ser um pai moderno, amigo dos filhos. Aqui, um adendo, fazia muito tempo que não observava um elenco infantil tão a vontade e bem escolhido, todos são interessantes, e nenhum parece ser uma criança adulta, todos possuem facetas exploradas durante a temporada, em especial, Manny (o melhor deles). Não esquecendo que o show já conseguiu inúmeras participações especiais, mesmo em seu primeiro ano, Edward Norton, Minnie Driver, Fred Willard e Benjamin Bratt, entre outros.

Dou grande crédito aos roteiristas que souberam equilibrar toda a temporada com pequenas esquetes humorísticas, sem nenhum arco, todo episódio apresenta uma storyline para cada família, ou todos numa mesma trama. Ponto alto da temporada: o cachorro-mordomo de Jay. Parece uma série que não terá fim!

Glee: mais do que uma boa série, Glee, atualmente é um fenômeno televisivo! A série do maluco Ryan Murphy (que criou a ótima Nip/Tuck e, depois, a jogou fora, pelo menos no que se refere a qualidade), é o grande hype da temporada, tem como fiapo de roteiro um grupo de losers acrescidos de alguns esportistas e cheerleaders, tentando manter em pé o coral da escola. Tudo está lá, os estereótipos do “high school” americano, o sonho americano de cantar, a histórica qualidade em produzir musicais tudo isto num misto de drama barato com comédia de humor negro, especialidade da melhor personagem, a treinadora Sue Sylvester, que odeia o Glee Club, sua atriz Jane Lynch merece todas as indicações/prêmios que receber nas próximas temporadas.

No entanto, por mais que a gente encare a série como um passatempo leve e despretensioso, os ótimos momentos musicais, com participação de atores/cantores vindos da Broadway e com uma excelente escolha de repertório (quem não ouviu a versão da série para Don’t Stop Belivin, clássico da banda Journey? ), não há como negar que o roteiro da série é muito precário. Trabalha com idéias conforme os episódios são construídos, os pobres personagens ganham contornos conforme os roteiristas querem, não há uma linha narrativa coerente e de qualidade, pelo menos, nos momentos em que o grande evento da série ocorreu, as competições musicais, o texto colaborou.

Mesmo assim, fica a dica para os produtores, como a série já foi renovada para um terceira temporada (não esqueçam que a série já é maior que a televisão, tem turnê pelos Eua, além da indústria fonográfica que agradece o incentivo, lançando novos cantores e ressuscitando trilhas/músicas já esquecidas), quem sabe investir um pouco mais na narrativa dramática/cômica da série, não ser tão maniqueísta como se apresentaram neste primeira temporada? Até porque se pensarmos bem o canal Fox achou o par ideal para o reality American Idol, programa de maior audiência do canal e da programação da tevê aberta americana.

The Good Wife: como é interessante observar que certos subgêneros dramáticos das séries americanas se renovam de tempos em tempos, as séries médicas resolveram abrir mão do simples corre-corre das emergências ou de rotinas hospitalares e investiram no estudo de personagens e seus relacionamentos, como podemos ver em House e Grey’s Anatomy. Agora, podemos ver um fenômeno parecido com o subgênero drama de tribunal, com o término de Law & Order, que investia no retrato semanal de casos policias e suas consequências no sistema júridico, temos The Good Wife, que investe no estudo de uma personagem, em especial, a protagonista que de dona-de-casa, casada com um promotor, preso após um escândalo de corrupção e sexo, tem de voltar ao trabalho de advogada para reconstruir sua reputação e sustentar seus dois filhos.

Ao longo da temporada, vemos as consequências da brusca mudança de vida da personagem, que vivia a sombra do marido, e precisa voltar ao batente encontrando tudo que é tipo de preconceito e defendendo clientes nos casos mais polêmicos e estranhos. A série soube equilibrar a vida particular da Alicia Florrick, uma mulher bastante contida (papel defendido com maestria por Julianna Margulies, indicação certa na temporada!) que tem que se dividir entre seus casos na firma, o marido preso, as consequências disto no seu dia-a-dia e o amor platônico pelo chefe/colega. Se engana se pensas que a série é um draminha de dona-de-casa, os episódios trabalham com a narrativa cliente da semana e como pano de fundo, toda a conspiração envolvendo o marido de Alicia, promotor Peter Florrick, sem sabermos ao certo o que é verdade ou mentira no seu processo.

Talvez o maior acerto da série seja trabalhar com personagens bastante ambíguos, sem necessariamente, haver mocinho ou bandido, mas pessoas em busca de poder, informação e dinheiro, além de privilegiar bastante questões políticas. A reta final da temporada que trabalha melhor o retorno de Peter Florrick é exemplo disto, e ganha pontos com a entrada de personagens como Eli Gold, consultor de Peter, personagem fascinante de Alan Cumming.

FlashForward: o grande fiasco da temporada atende por este nome, FlashForward! Hoje é de chorar de rir a campanha do canal ABC para divulgar a série que substituiria Lost, houve todo um investimento em divulgação e na procura de similaridades entre as séries, para consequente sucesso desta. O que aconteceu? Quando FlashForward estreou, ainda num piloto bastante promissor, vimos o mesmo tipo de narrativa seriada com personagens envolvidos num grande mistério, que diretamente ou indiretamente, envolvia viagem no tempo, no caso um apagão que mostrava o futuro dos personagens, e temas científicos. No decorrer dos episódios a expectativa foi caindo conforme se observava a qualidade das subtramas e os equivocados personagens da série.

Não lembro de tamanho equivoco na escalação dos atores numa série como em FlashForward, nenhum ator parecia ter o perfil do personagem ou o roteiro mesmo não conseguia fazê-los me convencer, isto que na sua maioria os atores já eram conhecidos do público, como Sonya Walger e Dominic Monaghan, respectivamente, Penny e Charlie de Lost. Confesso que acompanhei a série até seu inevitável final pelo tema que me pareceu (e continuo achando) fascinante, e quando se tratava de mostrar os apagões, estes eram os únicos momentos no qual a série se tornava aceitável.

Hoje vejo que a presença de um produtor-cabeça, o showrunner, é extremamente importante,  a pessoa que comanda a parte criativa da série junto aos roteiristas, FlashForward perdeu David S. Goyer (também criador da série e roteirista de filmes como Batman e Blade) logo depois de seus primeiros episódios, quando o canal viu a qualidade da trama se esvaindo junto à audiência. Assumiu outro produtor, notou-se alguma melhora, principalmente, após o hiato da série, no episódio Revelation Zero, porém, a mudança não conseguiu manter uma regularidade, perdia-se muito tempo com dramas pessoais de personagens desinteressantes que não acrescentavam nada à mitologia da série, mostrando que o grande problema da FlashForward foi a construção de seus personagens principais e suas storylines. Espero que o canal tenha aprendido a lição!

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