Precisamos Falar sobre o Kevin

É com pesar que vejo um filme tão impactante e bem realizado não ganhar a visibilidade que uma indicação ao Oscar proporciona para os filmes menores, mesmo ganhando projeção em escala menor por indicações ao Bafta 2012 e o Globo de Ouro 2012 (entre outras premiações). O filme da diretora Lynne Ramsay é uma adaptação para o romance homônimo de Lionel Shriver, roteirizado por ela e Rory Kinnear, conseguindo criar um duro drama sobre a maternidade como poucas vezes o cinema foi capaz de retratar.

O que mais gostei da adaptação, além da excelente direção da Ramsay, com sensibilidade e talento, principalmente ao conseguir ilustrar com a cor vermelha o tom visceral/trágico do filme e acertar na montagem/linha narrativa desconstruída, onde descobrimos aos poucos todos os nuances dos personagens, foi como o roteiro conseguiu evitar de fazer com que a criança/adolescente Kevin não parecesse um novo Damian (o garoto diabólico de A Profecia). Digo isto, porque o relacionamento de mãe e filho chega ao nível do doentio, tamanha frieza e cinismo do jovem personagem, que consegue manipular a personagem de Tilda Swinton desde criança, e quando adolescente, cria uma relação com a mesma, beirando a insanidade. Nestes momentos, o roteiro dá uma dimensão assustadora a este relacionamento, sem cair numa armadilha de filmes de terror, para mim o grande mérito da película, sem deixar de ilustrar outros dois personagens “normais” da família, que ficam à mercê do que acontece com Eva e Kevin, Franklin, o pai, e Celia, a irmã mais nova (jovem atriz, que participa como filha do comediante Louie, na sua série televisiva).

Claro, que contando com Tilda Swinton interpretando Eva, primeiro num misto de inquietação e despreparo, para após a reviravolta em sua vida, nos revelado somente num segundo momento do filme (e que é muito pior do que eu imaginava), ser retratada com uma resignação e culpa palpáveis. Impressionante a carga dramática da personagem, mais um equívoco dos votantes do Oscar, não há perdão para uma personagem como esta não estar entre as finalistas do prêmio.

Como trabalhei em videolocadora, sempre gosto de frisar, é um drama impactante, com um estudo de personagens bastante profundo mas que não irá responder aquela que será sua maior dúvida: “Porque?”, logo, gosto de frisar que é um filme que irá assustar as “mães” de plantão, que podem ter muita dificuldade de encarar a maternidade, sempre tão angelical e carinhosa, como o retrato que o filme faz.

PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN: 8,5

Direção: Lynne Ramsay

Roteiro: Lynne Ramsay e Rory Kinnear

Com: Tilda Swinton, John C. Reilly, Ezra Miller, Jasper Newell, Ashley Gerasimovich. 110 mim Paris Filmes

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3 Respostas to “Precisamos Falar sobre o Kevin”

  1. laura Says:

    Vi o filme ontem e estou completamente indignada por ela não estar indicada a melhor atriz. Eu sei que vão dar o oscar a meryl streep, apesar de eu ter achado glenn close em albert nobbs fenomenal, mas tilda swinton nao fica atrás de jeito algum. Dava pra terem tirado Emma Stone.. que, apesar de ser uma queridinha minha, ainda tá um pouco longe de deixar uma marca de atuação.

    Consegui ficar mais chocada com o fim do filme, se é que isso era possível.

  2. Paulo Jr Says:

    Concordo com vc, Laura, é uma grande injustiça a ausência de Tilda Swinton pelo menos entre as indicadas, não tenho tanta certeza assim no prêmio de Meryl Streep, pois seu filme é apenas mediano, já Viola Davis por Histórias Cruzadas, me parece uma oponente forte à Meryl.

  3. laura Says:

    É verdade. foi viola davis a indicada. Mas eu nao achei o filme histórias cruzadas tão ótimo assim.
    Eu não queria descartar rooney mara da jogada, porque amei de paixão o filme.
    Tá.. como eu nao vi one week with marilyn, eu nao ligaria se michelle williams nao estivesse concorrendo haha.
    Mas de todas as que estão, eu daria o prêmio pra glenn close.

    Não sei se Meryl streep nao ganha. Todo mundo só fala nisso.. já que ela salvou o filme sozinha ali. Ser atriz boa é isso, né? conseguir se destacar independente se o filme for bom ou ruim? ela é uma apelona. Era o mesmo quando judi dench concorria!

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