Archive for the ‘Filmes’ Category

Manchester à Beira-Mar

14/02/2017

manchester

Ô filme triste do capet@!

Que belo melodrama Kenneth Lonergan (dos dramas Conte Comigo e Margareth) produziu, um trama sobre perda/perdão e suas consequências nas pessoas. Para isto, somos apresentados à Lee Chandler, um quieto zelador, que no início da projeção é informado do falecimento do seu irmão mais velho e necessita retornar à Manchester, local no qual sofreu um chocante trauma no passado.

Mesmo contando com uma sinopse aparentemente simples, a maneira orgânica e sensível como Lonergan o faz é o grande mérito da película, o trauma sofrido pelo personagem, o qual nos é apresentado em meio à flashbacks (que também ilustra a afetuosa relação entre Lee e seu falecido irmão, sua família), é de fácil identificação para o espectador, tanto o texto quanto a criação de Casey Affleck colocam o personagem em rota de auto colisão/destruição, é um personagem simplesmente quebrado emocionalmente, mas sem perder sua humanidade em determinados momentos (como no trato com seu sobrinho, indicado ao Oscar o jovem ator Lucas Hedges).

Ainda sobre Lonergan, me agrada demais a maneira como o roteiro evita a pieguice, alternando ora os momentos conflituosos ora uma conversa bem humorada ou carinhosa, os personagens são muito bem construídos, transpiram humanidade; Kyle Chandler, o irmão falecido, surge nos flashbacks afetuoso e um irmãozão/suporte para Lee em seu pior momento, Lucas Hedges, como Patrick, tem o luto pela morte do pai e o conflito do que ocorrerá em sua vida, afinal sua mãe esta distante, ao mesmo tempo que enfrenta os problemas corriqueiros de um adolescente, como garotas e sexo e, para fechar, Michelle Williams, em meia duzia de cenas, como a ex-esposa de Lee, Randi, tem num momento chave na película que simplesmente desmonta o mais insensível coração.

Lindo, triste, bem fotografado, cheio de metáforas devido a geografia da cidade, Manchester à Beira-Mar é facilmente um dos melhores filmes desta safra do Oscar 2017.

MANCHESTER À BEIRA-MAR

Direção: Kenneth Lonergan

Roteiro: Kenneth Lonergan

Com: Casey Affleck, Lucas Hedges, Michelle Williams, Kyle Chandler, Gretchen Mol, Tate Donovan. 138 min

La La Land

25/01/2017

City of stars
Are you shining just for me?
City of stars
There’s so much that I can’t see

lalaland

Antes de qualquer comentário escrevo este texto após o anúncio das indicações ao Oscar 2017, no qual La La Land foi agraciado com 14 indicações, recorde pertencente a filmes como A Malvada e Titanic, assim já imagino que até daqui um mês, quando da realização da entrega de prêmios, o filme já terá sido “desmontado” pelos queixosos e insatisfeitos de plantão, com possível argumento de que “ele (o filme) nem é tão bom assim”; resultado de anos de observação de filmes com maciço apoio da crítica e público, que gera uma corrente contrária somente para contrariar.

Claro que em comparação aos dois clássico acima citados La La Land parece o irmão menor, sem grandes pretensões, um filme baseado numa homenagem ao quase falecido gênero musical (que vive de ciclos bissextos) e à cidade base da indústria cinematográfica (Hollywood), Los Angeles.

Como musical o que mais gosto em La La Land é a “desculpa” para os números musicais, seriam momentos de introspecção dos personagens, devaneios, assim soam naturais, quem nunca se pegou sonhando e cantando em algum cenário em sua vida? Além disso, a trilha sonora e as músicas são muito boas, City of Stars, minha predileta, já esta na minha playlist, uma lógica que nem sempre ocorre em filmes musicais, possuírem boas músicas, contemporâneas ao cotidiano que qualquer pessoa.

Para não dizer que tudo são flores, acho o roteiro bastante simples (para indicações à prêmios) e Ryan Gosling esta apenas “bem” em cena (em ótima química com Emma Stone), devido mais ao personagem do que ao trabalho do ator; dito isto, em contrapartida, acho o filme tecnicamente perfeito, cenografia, figurinos, fotografia enchem os olhos, já Emma Stone está um “Sol” é o centro das atenções devido ao seu carisma e empatia de sua personagem, a atriz com este projeto desponta para o primeiro time de jovens atrizes americanas.

Mas acredito que todo mérito de La La Land recai sobre seu diretor e roteiristas Damien Chazelle, depois do sucesso com Whiplash em anos anteriores, Damien se gabaritou para este projeto mais ambicioso e que se vingou devido ao prestígio recente do diretor, os Deuses do Cinema agradecem!

LA LA LAND: 5star

Direção e roteiro: Damien Chazelle

Com: Emma Stone, Ryan Gosling, John Legend, J.K. Simmons, Rosemarie Dewitt. 128 min.

 

Um Homem Entre Gigantes

07/03/2016

Em meio à campanha #oscarsowhite, que obviamente é uma questão de suma importância como denúncia de pouco acesso aos negros e minorias aos melhores papéis da indústria cinematográfica, falava-se sobre a ausência de Will Smith, como exemplo, na mesma premiação por seu papel em Um Homem Entre Gigantes, como sendo uma injustiça da Academia; este tipo de repercussão me preocupa em tempos de radicalismos, pois o personagem Dr. Bennet Omalu e consequentemente o filme dirigido por Peter Landesman são de uma superficialidade ímpar, como normalmente ocorre em biografias americanas, não conseguem apresentar seu “biografado” sem homenageá-lo, glorificá-lo e canonizá-lo, típico exemplo de biografia “chapa branca”!

concussion

Dr. Omalu é um cientista exemplar perdido dentro de um prédio Médico Legal, seus colegas não gostam dele pois ele trabalha e dedica-se “demais”, inclusive conversa com os mortos, é um estrangeiro discreto, educado e praticamente assexuado; o personagem não apresenta conflito algum para Will Smith, sempre com forte sotaque, olhar doce e fala mansa, o personagem somente tem alguns embates com figurões ou colegas com maior prestígio que o dele, nem mesmo sua vida privada é abordada com verosimilhança pelo roteiro, sua “partner” Gugu Mbatha-Raw, serve somente de ouvidora para as explanações do personagem em determinados momentos do filme, um desperdício!

Ao tentar fazer um típico filme “homem contra o sistema”, no caso a denúncia do dr. Omalu de que o futebol americano causava danos neurológicos aos jogadores da Liga NFL, lembrando que este é fato verídico, o roteiro e a direção não conseguem se impor de maneira clara, pintam todos personagens e situações com preto e branco, não há espaço para sutilezas, conspirações e hesitações, parece que tentaram deixar tudo o mais “mastigadinho” possível para o grande público.

Portanto, foi um belo acerto deixar de fora do Oscar tanto a interpretação de Will Smith como possíveis outras indicações a mais um filme “oscarizável” de 2015.

PS.: bons exemplos de indicações que poderiam combater o debate étnico deste ano seriam Samuel L. Jackson, por Os Oito Odiados, Michael B. Jordan, por Creed, assim como seu diretor/roteirista, Ryan Coogler, apenas para citar alguns.

UM HOMEM ENTRE GIGANTES: 2star

Direção: Peter Landesman

Roteiro: Peter Landesman, artigo de Jeanne Marie Laskas

Com: Will Smith, Gugu Mbatha-Raw, Alec Baldwin, Albert Brooks, David Morse, Arliss Howard. 123 min

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A Garota Dinamarquesa

02/03/2016

Apesar de passado o buzz sobre o Oscar 2016, ainda há alguns filmes aos quais gostaria de tecer alguns comentários, nem todos positivos, como o caso de A Garota Dinamarquesa. Indicado para alguns prêmios Oscar, e bastante citado em outras premiações, sobretudo o trabalho da dupla de protagonistas, Eddie Redmayne e Alicia Vikander, é possível notar que o estrago até foi pouco, digo isso, porque o filme em si é uma reunião de equívocos, principalmente, por parte do roteiro e da direção.

agarotadinamarquesa

Apesar de não gostar do trabalho de Tom Hopper, desde seu equivocado Oscar por O Discurso do Rei e, em seguida, por Os Miseráveis, acreditava que a história de Einar Wegener/Lili Elbe era uma trama cinematográfica por excelência; visto o filme, as expectativas foram “ladeira abaixo”, o roteiro de Lucinda Coxon é de uma pobreza ímpar, ao invés de investir sua narrativa nas angústias e transformações pelas quais passam sua personagem (no caso, Einar/Lili), ela simplesmente coloca o personagem vestindo a roupa da esposa para posar para a mesma e isto aflora seu lado feminino e pronto, assume sua identidade feminina! Não parece haver uma transição psicológica para o personagem, assim como a aceitação da esposa, Gerda, também é extremamente simples, do ponto de vista dramatúrgico. Além disso, o roteiro parece mentir, esconder alguns fatos conhecidos de historiadores, como a sexualidade de Gerda, que seria lésbica o que facilitaria sua aceitação a identidade feminina do marido, assim fica difícil embarcar numa trama dita real que apela para o tom mais novelesco em detrimento dos fatos conhecidos.

Se o roteiro já escorrega em sua função, Hopper também não facilita em suas escolhas, sempre apelando para o melodramático como os confrontos entre os protagonistas, os desenlaces dramáticos e as insistentes sutilezas de Lili Elbe em frente ao espelho, como se tivesse se reconhecendo, uma direção irritante pela obviedade e primária para um ator competente como Eddie Redmayne (ganhador do Oscar 2015), mas que precisava de uma direção mais segura e menos oscarizada para bodá-lo neste gestual.

Insisto que seja o filme mais fraco desta safra do Oscar 2016, no entanto, o trabalho de Alicia Vikander (premiado com o Oscar de atriz coadjuvante), que é protagonista antes de qualquer coisa, apesar da fragilidade do roteiro, imprime emoção na medida certa para sua personagem, além disso, é óbvio que há uma bela direção de arte, incluindo cenários e figurinos, pena que à mercê de uma trama tão equivocada, afinal quais foram as motivações de Einar em se transformar em Lili? Não poderia opinar!

A GAROTA DINAMARQUESA: 2star

Direção: Tom Hopper

Roteiro: Lucinda Cox

Com: Alicia Vikander, Eddie Redmayne, Ben Wishaw, Amber Heard. 119 min

 

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O Quarto de Jack

15/02/2016

oquartodejack

Se o buzz de O Quarto de Jack, quando mencionado, sempre aponta para o nome do jovem ator, na verdade, a carismática criança Jacob Tremblay, merecidamente, diga-se de passagem, afinal de contas o difícil e pesado tema do filme tem como ponto de visto o do jovem Jack, quando vemos o filme, o mesmo ganha contornos maiores e melhores. Se não é mentira que Jacob Tremblay rouba a cena, também, deve-se deixar bem claro, que o excelente trabalho de direção, de roteiro e de sua parceira de cena, a atriz Brie Larson, colaboram em muito para o filme um destaque e, consequentemente, parte da cota independente (indie americana) no Oscar 2016.

Gosto quando o Oscar dá visibilidade a certos projetos, pequenos em sua maioria, mas relevantes em temas abordados, como acontece em O Quarto de Jack; me surpreendi bastante com a metade inicial da narrativa que dramatiza as manchetes de jornais sobre mulheres feitas reféns em cativeiros e que acabam criando uma família, vinda do abuso, nesse ambiente. Ali, o diretor Lenny Abrahamson mostra todo seu talento, junto ao diretor de fotografia e aos cenógrafos, ao “expandir” o referido quarto do título, deixando-o muito maior do que realmente é (como conferimos numa sequência ao final), mimetizando o olhar de Jack para este, afinal como aquele é o universo do personagem, nada como este achá-lo muito maior do que realmente é.

Em sua segunda metade, pós fuga do cativeiro, o roteiro muda a abordagem, sai a aparente retrato de normalidade do dia-a-dia, de abusos cíclicos e dificuldades, e entra em cena a adaptação para o “mundo real”, neste sentido, Jack por estar em contato com incontáveis novidades se adapta muito melhor que sua mãe, que em seu retorno para o lar dos pais (na verdade, da mãe, pois após 7 anos de cativeiro, seus pais se separaram), encontra extremas dificuldades em “continuar” com sua vida, parece que realmente o que mantinha Joy “viva” no cativeiro era sua porção “mãe ursa”, protegendo o filho de possíveis contato com Velho Nick e com a dura realidade na qual viviam; neste momento, o roteiro e a atriz Brie Larson, roubam o filme para si, retratando a fragilidade psicológica na qual o jovem se encontra, triste e comovente!

Buscando abordar somente as vítimas, em momento algum sabemos o que ocorre com o estuprador/sequestrador e nem seus motivos, o roteiro se diferencia de dramas comuns, ao buscar delicadeza e verossimilhança para os eventos, além dos referidos talentos acima citados. Um filme imperdível!

O Quarto de Jack: 5star

Direção: Lenny Abrahamson

Roteiro: Emma Donogue

Com: Brie Larson, Jacob Tremblay, Joan Allen, William H. Macy. 118 min

Os Oito Odiados

21/01/2016

osoitoodiadosComeço a resenha dizendo que sou fã dos trabalhos do diretor/roteirista Quentin Tarantino, nerd, fã de cinema de gênero, Tarantino é um herói para quem curte o cinema pop recheado de homenagens e referências a clássicos, diretores e trilhas sonoras; em Os Oito Odiados, além de retornar ao thriller de confinamento/enfrentamento visto lá nos seus primórdios em Cães de Aluguel, notadamente, o roteiro de Tarantino navega por outras referências, como o óbvio western e pitadas de Agatha Christie, sem esquecer de acrescentar, mais uma vez, um microcosmos social como pano de fundo.

Assim me parece que o cinema de Tarantino vem evoluindo (mesmo nem sempre genial), seus últimos filmes, Bastardos Inglórios e Django Livre, já trabalhavam numa revisão histórica de fatos da História Americana/Mundial tendo também como pano de fundo contextos sociais, casados com a violência pertinente às épocas que o diretor não abre mão.

Em Os Oito Odiados, mesmo tendo uma primeira parte falada ao extremo, sem quase ação nenhuma, passada no interior de uma carroça (belamente fotografada e encenada), o diretor consegue transmitir com eficiência a solidão e isolamento dos personagens naquele do belo visual gélido do Wyoming. No entanto, é inquestionável o crescimento do filme com a chegada dos personagens à cabana/mercearia para fugir da nevasca que se aproxima, até este momento, fomos apresentados aos caçadores de recompensa John Hurt (Kurt Russell) e Major Marquis (Samuel L. Jackson, sempre eficiente trabalhando com Tarantino), ao misterioso xerife Chris Mannix (uma das melhores surpresas do filme, Walton Goggins, já famoso dos seriemaniácos por trabalhos nas séries Sons of Anarchy e Justified, caindo como uma luva no cinema/personagem de Tarantino) e a prisioneira Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh, cumprindo a cota atores renascidos em filmes do Tarantino).

Na mercearia, lindamente fotografada, retratada e, praticamente, cenário único na metade final do filme, os demais personagens nos são apresentados (Bruce Dern, Tim Roth, Demian Bichir e Michael Madsen), e um clima de conspiração, paranóia, armadilha, segredos e muita violência são explorados dali em diante. Se a primeira parte do filme peca na dinâmica, necessária para apresentar os personagens, a sequência toda na mercearia é o que de melhor Tarantino nos reserva, tanto no texto, quanto direção, cenografia e atuação, não esquecendo a trilha sonora de Ennio Morricone (mestre dos western), surpreendente ao fugir do óbvio.

A cereja do bolo do roteiro de Tarantino, que não abre mão do sarcasmo e humor negro costumeiros, é o retrato social que o diretor cria para os Eua pós Guerra Civil, se nos diálogos isso fica bem claro, principalmente, no embate entre o Major Marquis e o General Smithers, o mosaico de personagens isolados na nevasca enfatiza essa questão, reparem que temos americanos, do sul e do norte, um mexicano, um inglês e uma única mulher (criminosa, que vira o saco de pancadas dos personagens, surgindo em cena já de olho roxo, numa violência cartunesca).

OS OITO ODIADOS: 9,0

Direção: Quentin Tarantino

Com: Kurt Russell, Jennifer Jason Leigh, Samuel L. Jackson, Walton Goggins, Tim Roth, Michael Madsen, Bruce Dern e Demian Bichir. 168 min

Beasts of No Nation (Netflix)

21/10/2015

beastsofnonation

Ao surgir como plataforma para transmissão de conteúdo streaming anos atrás dificilmente acreditaria que em pouco tempo o Netflix, primeiro criaria conteúdo para exibição própria como séries e desenhos (Orange Is the New Black, House of Cards, entre outros), em busca de reconhecimento e popularização, já arrebatando prêmios importantes, para, num segundo momento, expandir ainda mais seu conteúdo ao criar e/ou exibir em parceria filmes inéditos no circuito exibidor tradicional (cinema/home video/televisão).

Tendo alguns contratos e filmes já viabilizados nesse momento (se não me engano, com o ator Adam Sandler serão quatro filmes lançados) para exibição nos próximos meses, espero que o Netflix aposte em produções do calibre desta primeira, Beasts of No Nation, pois comédias idiotas do tipo de Adam Sandler já encontram espaço no circuito exibidor, em contraponto, um filme como Beasts of No Nation dificilmente são produzidos com dinheiro americano e, se são, poucas vezes conseguem ser tão relevantes e verossímeis como o roteiro e a direção de Cary Joji Fukunaga, mais conhecido pela visão por trás da 1ª temporada de True Detective (diretor de todos episódios).

Antes de comentar sobre Fukunaga, acho importante apontar a escolha do elenco do filme, um trabalho belíssimo e competente de preparo do mesmo, principalmente, se levarmos em conta, que a única figura conhecida é o ator inglês Idris Elba (conhecido dos fãs de série pela ótima série Luther), já os demais praticamente amadores. No entanto, lembrando inclusive nesse ponto nosso filme mais reconhecido Cidade de Deus, o elenco jovem rouba a cena ao transmitir inocência, pavor, resiliência e esperança, com total destaque para o protagonista Abraham Attah (Agu), lembrando a boa repercussão do trabalho de Barkhad Abdi em Capitão Phillips, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar daquele ano de ator coadjuvante. Será que Abraham consegue o mesmo feito essa temporada?

Depois de assistir Beasts of No Nation até dá para desculpar Cary Joji Fukunaga pelo seu afastamento da 2ª temporada de True Detective, inclusive, é fácil observar como a trabalho em todos os episódios da magnífica primeira temporada fizeram falta nessa segunda (desculpa aí Nic Pizzolato!). Dito isso, Fukunaga além de dirigir e roteirizar também foi o diretor de fotografia do projeto, lembrando como vários críticos apontaram ares de “Terrence Malick” nas sequências da floresta. O trabalho do diretor é duro, inclusive graficamente pelos genocídios expostos, mas, ao mesmo tempo, não abre mão de ilustrar a inocência daqueles crianças miseráveis perdidas numa guerra civil sem sentido e de lados obscuros, como na bela e cômica sequência inicial tendo uma caixa de televisão como brinquedo.

Concluindo, fica a expectativa de saber como a Academia e seus integrantes (que repercutirá no Oscar, obviamemte) irão reagir ao filme no sentido de não ser lançado de maneira tradicional (mesmo que tenha conseguido exibição na telona, em circuito restrito), ficará a favor dos exibidores ou apostará na popularização inevitável desse meio, inclusive no sentido de conseguir arrebatar um público mais jovem e antenado as novas mídias? Será interessante observar essa questão.

Lugares Escuros

30/07/2015

lugaresescuros

Não sei em que momento os produtores compraram o direito sobre a adaptação cinematográfica do livro “Dark Places” de Gillian Flynn, porém o sucesso de público e crítica de “Gone Girl”, aqui conhecido como Garota Exemplar, gerou uma promoção gratuita para os produtores, pois não sei se sem a repercussão de Garota Exemplar, com o nome de Gillian Flynn estampado no cartaz, esse suspense alcançaria repercussão similar. No entanto, o elenco reunido para o filme é extremamente feliz, o mesmo não podendo dizer do roteirista/diretor Gilles Paquet-Brenner (de A Chave de Sarah).

Para um suspense que tem como fonte o mesmo tipo de suspense observado em Garota Exemplar, o suspense familiar (com forte tendência a ser uma sessão Supercine, quando mal realizado), nota-se que a falta de um diretor melhor qualificado faz total diferença, além da diferença que é ser adaptado pela própria escritora, no caso de Garota Exemplar.

O filme até inicia bem apresentando Libby (Charlize Theron, bastante dedicada ao papel) de uma maneira bastante convincente e verossímil, ela é uma jovem adulta “fudida”, cleptomaníaca, com problemas de espaço físico (ninguém pode lhe tocar) e que vive de doações de estranhos para um fundo após o trauma familiar em sua infância, ou seja, uma personagem completamente fora dos padrões de mocinha de filme de suspense (o que me lembra o casal protagonista de Garota Exemplar que, também vivia uma vida à parte da imagem esperada deles).

A ideia do clube de investigação, também me pareceu uma ideia bacana (querer retomar a verdade por trás do Massacre de Kansas) uma boa desculpa para fazer a protagonista relembrar dos eventos, os quais ela tem pouca memória e que acabaram colocando o seu irmão na prisão acusado de ter sido o responsável pelos assassinatos, porém, o clube de investigação, representado pela figura de Nicholas Hoult (também dividindo a cena com Charlize em Mad Max), logo sai de cena e perde relevância em seguida na trama.

Como, normalmente, acontece em literatura competente do gênero há bons coadjuvantes e todos, como suspeitos/vítimas da trama central, ganham espaço no filme em determinado momento, no entanto, os flashbacks contínuos e intercalados ao tempo real da trama, quebra demais a dinâmica do filme, sendo que em determinado momento, na reta final, os flashbacks são muito mais interessantes do que o andamento atual.

O roteiro peca ao final, quando a trama se torna complexa demais para uma simples resposta (quem matou?), e para isso, corre apresentando personagens de maneira superficial como, por exemplo, a versão adulta de Diondra (também irregular na adolescência quando nas mãos de Chloe Grace Moretz) e sua filha.

Obs.: Me chamou a atenção nas tramas de Gillian Flynn, as duas já adaptadas ao cinema, as personagens femininas fortes e manipuladoras, interessante esse viés da autora em seus livros, enquanto isso, os homens são losers e/ou passivos, apenas espectadores da ação das mulheres.

LUGARES ESCUROS: 6,0

Direção e roteiro: Gilles Paquet-Brenner

Com: Charlize Theron, Nicholas Hoult, Chloe Grace Moretz, Tye Sheridan, Christina Hendricks, Corey Stoll, Andrea De Matteo, Andrea Roth. 113 min

 

Grandes Olhos

13/02/2015

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Mesmo parecendo abrir mão de sua assinatura visual, o diretor Tim Burton, não deixa de buscar uma trama com destaque cênico, o mundo das artes, no entanto, para deixar o filme mais pomposo o diretor podia ter combinado com o roteirista uma maneira de encontrar um maior equilíbrio na biografia de Keane.

Digo isso, porque o tom cômico que, por diversas vezes, soa caricatural, principalmente na figura criada por Christoph Waltz, que me parece de verdade um ator taratinesco, funciona que é uma maravilha nas mãos de Quentin Tarantino, já com outros diretores me parece sempre dois tons acima do que o papel lhe requisita; já Amy Adams, mais natural, parece presa numa personagem subserviente demais, segundo o retrato do próprio filme, ficando difícil torcer pela personagem.

Mesmo com esses contratempos, confesso que gosto de ver Tim Burton diversificando sua filmografia, mesmo que longe de um dos meus filmes prediletos do diretor, outra cinebiografia, Ed Wood, Grandes Olhos prova que Tim Burton pode ser um diretor simplesmente “contador de histórias”, não somente um “contador de histórias bizarras com visual rebuscado”, mas renderia muito mais se o roteiro colaborasse, assim justificou-se a ausência do filme na temporada de premiações (quando no início de 2014 nascia burburinho em torno do mesmo).

Grandes Olhos: 5,0

Direção: Tim Burton

Roteiro: Scott Alexander e Larry Karaszewski

Com: Christoph Waltz, Amy Adams, KrYsten Ritter, Jason Schwartzman, Danny Huston, Terence Stamp. 106 min

Para Sempre Alice

08/02/2015

parasemprealice

“Arte de perder”

Não é a primeira vez que o cinema americano mergulha num dos piores males que pode atingir a saúde humana: a doença degenerativa, no caso específico do filme, o Mal de Alzheimer. Recentemente, um filme que também chegou ao Oscar, dirigido com beleza e delicadeza pela atriz Sarah Polley, Longe Dela, rendeu indicações ao roteiro (também da atriz/diretora), e atriz principal, para a veterana Julie Christie (sendo que indicava fácil, fácil o ator Gordon Pinsent, como protagonista masculino).

Se em Longe Dela, tínhamos a narrativa sob o olhar do marido que vê a esposa sendo “levada” pela enfermidade, em Para Sempre Alice, o roteiro centra a rotina na decadência física e intelectual da própria vítima, a professora de linguística, Alice Howland, portadora de um Mal de Alzheimer precoce e congênito, descoberto após alguns problemas como esquecimentos.

O foco da trama centrado em Alice, inicialmente em sua rotina na Universidade e com a família, vai sendo substituído pelas dificuldades neurológicas que vão surgindo paulatinamente, inicialmente, com perda de raciocínio e geográfica até um simples jogo de palavras do smartphone. Onde o roteiro falha é na construção dos familiares de Alice, principalmente, na filha mais velha, Anna (Kate Bosworth, num momento Renee Zellweger, com aparência “freak”), que surge em cena sempre como a filha arrogante, rasa e chata, poderiam (todos) render mais.

No entanto, como o filme gira no entorno de Julianne Moore, cito uma sequência que me emocionou e me fez rir devido ao contexto todo, Alice, já sob domínio do Alzheimer, vê num notebook um vídeo de Alice ainda sã, e no qual ela sugere um suicídio medicamentoso à sua versão enferma, a Alice enferma tenta por diversas vezes lembrar das instruções da Alice sã, mas em vão, já que a mesma rapidamente esquece as instruções; a sequência que parece cômica, na verdade, cria o grande contraponto entre a vivacidade da personagem Alice pré-doença com a passividade fria da Alice enferma, um trabalho digno de Moore, atriz merecedora de um Oscar há anos.

Para Sempre Alice é um drama simples, tocante e bastante triste.

Para Sempre Alice: 7,0

Direção: Richard Glatzer e Wash Westmoreland

Com: Julianne Moore, Alec Baldwin, Kristen Stewart, Kate Bosworth, Shane McRea, Hunter Parrish. 101 min